position: Página Inicial Notas de imprensa
|
|
| Em ex-vila de pescadores, companhia ostenta resort |
| 2008-07-25 23:57:10 Valor Econômico OnLine |
|
Du Wen Xi considera-se um privilegiado. Aos 24 anos de idade, solteiro, vive sozinho nas instalações de um enorme resort de luxo, daqueles comuns às paisagens da Flórida e da Costa do Sauípe, na Bahia. No Residencial Baicao, Du tem acesso a serviços de restaurantes, lavanderia, transporte e pronto-socorro. Nas horas vagas, ele pode optar por tomar um banho de piscina ou encontrar-se com os amigos para um futebol no clube, tudo isso por um aluguel quase simbólico de US$ 120 por mês. Tanta mordomia, porém, tem outros custos.
Das 9 às 18 horas, Du é gerente de contas da Huawei. Há um ano e meio na empresa, o rapaz conseguiu encaixar-se entre os mais de 3 mil funcionários que vivem no complexo residencial da matriz, na cidade de Shenzhen.
A criação da "vila" Huawei, diz ele, não foi uma tentativa da companhia chinesa de diversificar seus negócios e tentar tirar uma lasca da explosão imobiliária que varre toda a China. Erguido em 2001, com investimentos em torno de US$ 1 bilhão, o Residencial Baicao é, na realidade, a saída encontrada pela empresa para concentrar seus funcionários-chave próximos às operações. No campus - além dos que gozam de posições executivas na companhia - vivem os funcionários que precisam ser encontrados rapidamente.
Há uma fila de espera para viver no condomínio. Isso porque a matriz da Huawei, onde trabalham mais de 30 mil pessoas, fica a cerca de 40 quilômetros do centro de Shenzhen. Se o trânsito local for embutido na conta, leva-se pelo menos uma hora para se chegar ao trabalho. "Morando aqui nós estamos do outro lado do muro", diz Du, muito satisfeito com seu dormitório de 23 metros quadrados.
O complexo da companhia, com suas dezenas de prédios administrativos e outros tantos residenciais, é pano de fundo para o crescimento paranóico que tomou conta de Shenzhen há pouco mais de 20 anos.
No início da década de 1980, essa cidade localizada ao sul do país limitava-se a um pequeno povoado, uma vila de pescadores no delta do Rio das Pérolas.
Tudo mudaria rápido a partir do fim dos anos 1970, quando o líder do governo Deng Xiaoping colocaria em curso a abertura de mercado que transformaria a China no monstro produtivo que é hoje. Shenzhen foi exatamente onde onde essas reformas começaram.
Beneficiada pela proximidade com o centro financeiro e administrativo de Hong Kong, a cidade viu sua população crescer 2.700% em 25 anos. Com centenas de pés de manga - todos carregados - plantados ao longo de suas principais avenidas, a cidade parece não lidar muito bem com a concentração populacional, de mais de 10 milhões de habitantes. Entre 2001 e 2005, seu crescimento econômico anual foi um dos que mais puxaram os índices chineses, com uma média de 16,3%. No ano passado, a cidade - cujo slogan nos idos dos anos 1990 fazia referência à construção de "um andar por dia e uma avenida a cada três dias" - registrou PIB de US$ 96,6 bilhões.
Hoje, Shenzhen ostenta o fato de ser o embrião da revolução chinesa, principalmente quando se trata da indústria de tecnologia. A cidade é berço das operações da ZTE. Quando a Huawei nasceu por ali, em 1988, a fabricante de equipamentos Foxconn montava suas operações na região. Hoje, no caminho que deixa o centro de Shenzhen rumo ao interior, uma placa de estrada aponta o destino para as instalações da Huawei e da Foxconn. Esta última concentra, sozinha, mais de 200 mil funcionários no local.
Desde de criança, Du Wen Xi tem sido testemunha ocular das mudanças que engolem sua cidade. O jovem fala com orgulho sobre a modernização que começa a jorrar das principais metrópoles de seu país, uma nação cuja paisagem geral está anos luz de distância do que se vê dentro dos muros do Residencial Baicao.
Mas Du tem um sonho que também extrapola o campus onde vive. Há pouco mais de três anos, ele passou a estudar a língua portuguesa. Ainda tem dificuldades no idioma, mas já conseguiria se virar sozinho. "Aqui é muito bom", diz ele. "Mas um dia também quero morar no Brasil." |
TOP Close |